Ninguém. Ninguém se mexa, gritou ela enquanto subia o balcão.
Isto é um assalto..abram os cofres e entreguem-me os vossos melhores sentimentos.
O sr. aí de óculos? Está a olhar para mim porquê?
- Dê-me agora o seu melhor.
- Lamento, nada tenho aqui já.
- Como não? Isso é impossível
- Acredite em mim, não ia querer o que lhe posso dar.
- Porque não?
- Porque a vida não é justa. Invariavelmente injusta.
- O que tem aí? gritou ela nervosa..
- Tenho mil nuvens de chuva comigo a trovejar no peito, tenho um palácio vazio em ruínas, tenho noites de sol negro, caras sem olhos, bocas sem dentes e tábuas pregadas onde escorre o vinagre da criação. Tenho pesadas memórias e amargas vitórias, tenho fendas infindáveis e estilhaços espalhados pelos cantos. Tenho somente a minha senhora da solidão a morar-me aqui dentro e esfaçelar os vãos de escadas com as suas lágrimas de pedra. Nada tenho para oferecer senão isto.
- Desculpe..fique com isto, você precisa mais do que eu.
- Não quero..
- Como não ? Não quer luz ? Não quer ver mais além ? Não quer esperança?
- Não. Eu sei o que sou. Cada um tem a sua natureza e encargo..
- Mas...balbuciou...nunca é tarde...não se deixe ir..fique aqui.
e ele murmurou:
-Em cem noites
fui eu uma vez
em mil horas desdenhosas,
fui sombra de um sol que jamais nasceu.
Eu ondas de mar profundo,
naufraguei mais do que nadei
Em caminhos que levavam a lugares felizes
perdi o rumo mais do que poderia ter encontrado.
Cheguei ao sítio onde devia ter partido
E encontrei-me mais próximo no rasgo de um precipício.
Por tudo isso e por não me adivinhar o bom fim
mexo-me na ante-câmara do pesadelo
entre a sombra e desilusão
sopro o meu nome três vezes à morte e aguardo apenas pelo seu chegar.
- A vida não é justa - ela choraminga..
- Quem lhe disse que era? - roubou-lhe a ilusão.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
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