A beleza desperdiçada num sorriso inquieto
imaculada na perfeição de ser degenerado
e o vestígio de uma juventude abandonada recém nascida
plasmada num olhar ténue poisado no finalmente.
vertem lágrimas de cera do tecto falso da longa espera
como torta é a sina dos que sofrem
e negra a manta dos que tecem a sorte confiando no destino.
Para que alguns sonhos se tornem reais terá sempre de haver
sal a mais nas feridas
e os pássaros no céu terão de morrer
e só depois
muito depois disso, deixarão todos de cantar.
Até lá nascem rios e morrem estrelas
bailam gigantes e rescussitam borboletas
O céu veste-se de branco para nos receber..
mas as marcas da tua devoção estão no meu corpo.
A banda apruma-se enquanto eu peço um pouco mais
de ser
de intensidade
de sol
de chuva
de faca nos dentes feito salteador na noite
de punho cerrado contra a revolução sangrenta que tu és..
de olhos a brilhar na escuridão como anjo negro sedento de...
tudo isso e ainda mais.
Só que as marcas da tua devoção ainda estão no meu corpo..
E eu não as consigo fazer desaparecer
ainda que tente
não tenho lágrimas que cheguem que encharquem tudo isto
e me façam salgar as feridas e voar.
Desejo tolo de querer ir em direcção ao sol
e cair do mais alto ar
para o ainda mais fundo chão
que me receba de braços abertos
e fendas fundas que me entranhem e façam desaparecer desta terra
para voltar novamente em direcção à estratosfera..
um salto de trampolim metafísico
um salto de fé
para quem não acredita na natureza humana
e sabe a cor do cadafalso banhado de crepúsculo.
Quem quer regressar a algo de que nunca verdadeiramente partiu
quem quer subir e esquecer que teremos de cair
que o faça
eu bem sei que sou pássaro cantante
daqueles que cantam apenas depois de morto
como os outros que assobiam as melodias de um dia qualquer
vestígios de uma existência de luz
sem sombra engolida
e sem marcas de uma devoção ainda no corpo..
já pensei em cortar os dedos para deixar de escrever
já pensei em sangrar os olhos para não mais me ver
já pensei nisso tudo e ainda não pensei apenas em parar de o fazer.
torturo-me constantemente sobre tudo e sobre nada
visto a pele do enfermo
e dispo a felicidade emprestada de quem não nada quer senão sorrir.
É..
sem sombra de dúvida o raiar da questão
queremos todos voar quando sabemos que teremos de cair...?
tão certo ser o que sobe também tem de descer
aquele que voa tem de sofrer?
E se assim é..
porque é que não conseguimos todos cantar?
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
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