sexta-feira, 24 de outubro de 2008

icarus

A beleza desperdiçada num sorriso inquieto

imaculada na perfeição de ser degenerado

e o vestígio de uma juventude abandonada recém nascida

plasmada num olhar ténue poisado no finalmente.

vertem lágrimas de cera do tecto falso da longa espera

como torta é a sina dos que sofrem

e negra a manta dos que tecem a sorte confiando no destino.

Para que alguns sonhos se tornem reais terá sempre de haver

sal a mais nas feridas

e os pássaros no céu terão de morrer

e só depois

muito depois disso, deixarão todos de cantar.

Até lá nascem rios e morrem estrelas

bailam gigantes e rescussitam borboletas

O céu veste-se de branco para nos receber..

mas as marcas da tua devoção estão no meu corpo.

A banda apruma-se enquanto eu peço um pouco mais

de ser

de intensidade

de sol

de chuva

de faca nos dentes feito salteador na noite

de punho cerrado contra a revolução sangrenta que tu és..

de olhos a brilhar na escuridão como anjo negro sedento de...

tudo isso e ainda mais.

Só que as marcas da tua devoção ainda estão no meu corpo..

E eu não as consigo fazer desaparecer

ainda que tente

não tenho lágrimas que cheguem que encharquem tudo isto

e me façam salgar as feridas e voar.

Desejo tolo de querer ir em direcção ao sol

e cair do mais alto ar

para o ainda mais fundo chão

que me receba de braços abertos

e fendas fundas que me entranhem e façam desaparecer desta terra

para voltar novamente em direcção à estratosfera..

um salto de trampolim metafísico

um salto de fé

para quem não acredita na natureza humana

e sabe a cor do cadafalso banhado de crepúsculo.

Quem quer regressar a algo de que nunca verdadeiramente partiu

quem quer subir e esquecer que teremos de cair

que o faça

eu bem sei que sou pássaro cantante

daqueles que cantam apenas depois de morto

como os outros que assobiam as melodias de um dia qualquer

vestígios de uma existência de luz

sem sombra engolida

e sem marcas de uma devoção ainda no corpo..

já pensei em cortar os dedos para deixar de escrever

já pensei em sangrar os olhos para não mais me ver

já pensei nisso tudo e ainda não pensei apenas em parar de o fazer.

torturo-me constantemente sobre tudo e sobre nada

visto a pele do enfermo

e dispo a felicidade emprestada de quem não nada quer senão sorrir.

É..

sem sombra de dúvida o raiar da questão

queremos todos voar quando sabemos que teremos de cair...?

tão certo ser o que sobe também tem de descer

aquele que voa tem de sofrer?

E se assim é..

porque é que não conseguimos todos cantar?

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