segunda-feira, 1 de setembro de 2008

vou ali e já volto

Saí para comprar cigarros e nunca mais voltei...

No bolso levava sonhos desfeitos e esperanças renovadas,

almejando começar vida nova logo ali no bairro ao lado

saí com a alma de poeta cheia de mim e com o coração esvaziado de ti.

Saí e já não voltei aquela casa que era tua e minha

e noutras só minha e noutras até mais tua do que vazia.

Qual fósforo riscado limpei o meu sorriso triste

e avancei pela escuridão fora fazendo brilhar a minha obscura mania de ser..

Roubei um cravo numa janela alheia e ajeitei-o na lapela

afinal haverá algo mais poético do que um cravo ao peito de um vagabundo?

O botão trocista que parece calhar em farpela de defundo

brilhante e desafiante

como se dissesse este já cá fica até ao dia fatídico...

este já cá mora diz o mesmo

este já não foge...digo eu enquanto seguro no cravo desajeitamente e sigo o meu caminho.

O meu caminho?

Um caminho qualquer vá, porque hoje não faço mais escolhas.

Escolham lá por mim e ajudem-me a atravessar este mar de pedra

decidam por mim e encham-me o copo novamente,

Porque esta noite já está ganha e eu decidi que nem vou comprar cigarros.

Guardo essa desculpa para uma próxima evasão

Agora é meia noite e eu já estou cá fora...

E a noite compromete-se a ficar comigo

O acordo tá desenhado no rosto do taberneiro que desdenhosamente olha de soslaio

enquanto rabisco no meu caderno as letras tortas de canções que ninguém irá cantar..

Vou ter com o meu amigo Neptuno

pedir-lhe abrigo, ouvir os seus murmúrios e deixar o seu peito rugir em mim..

A noite avança

eu rumo em direcção ao...volto já

a transmissão interrompe-se

tenho de ir...

comprar cigarros e já volto ou não...vou ali e já venho,

sem perder mais tempo..só para me perder..

vou ali e já volto...

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