Desenhei um sorriso no espelho embaciado saído do duche
olhei-me inexpressivamente e vi-me envelhecer...
Lembrei-me dos tempos passados debaixo da terra
e daqueles em pleno ar
das madrugadas gritantes e das noites caladas..
das quentes e imotivas indecisões e das frias e assassinas rotinas.
Pisei o chão molhado e encetei o passo despido
tatuado de água e perfume
abracei a toalha, enquanto senti as gotas cálidas
mergulharem acentuadas no tapete vermelho que suspira tristonho na sala..
vislumbrei a cama lânguida e sedutora
mas segui o meu caminho..
Nota após nota compondo o meu trecho
Camisa
calças
sapatos
pausa para pequeno almoço
e a música continua...
A rádio cantarola alguma coisa sem sentido e dá-me notícias sobre um mundo que não me envolve nem me cativa
Abro a janela do peito e respiro fundo
o nascer de um novo dia que desaba sobre tudo e todos está mesmo no virar da esquina
sem perdoar nem esquecer
sem melindres e sem pudor
Sem promessas nem ilusões...
a realidade prostra-se a meus pés enquanto engraxo os sapatos...
e assim vou..
acalentado sensações únicas em cada passo ainda dormente
ainda sonhador
ainda vivo
ainda sou..
Não consigo definir exactamente o quê, mas ainda o sou
às vezes menor
outras maior
outras apenas sombra..
Podia ser o meu maior sucesso
e podia ser o meu maior fracasso
ao invés do maior fracasso em ter sucesso
o maior sucesso ao ter fracasso
e trocava tudo isso por um raio de sol que me incendia-se as fagulhas da consciência..
a chama que não chama por mim
revolve o passeio e desenha o traçado
que morre que vive e que desenha distraídamente o desejo...
dois caminhos
como duas flores
belas e distintas
que brotam e que murcham simultanemente
cálculo da natureza invencível
Propragada sobre mim adivinha-se a propaganda de um dia de outono..
amadurecido e doirado
a luz vai caíndo nos meus olhos
e lá fora....
murmuram canções antigas...
e escrevem-me cartas que nunca li...
..lá fora deve ser noite pois aqui ainda durmo profudamente..
Sonho...
Sonho até ao acordar e ter um sorriso desenhado no espelho por mim.
Espero até ao amanhã para ser uno
e ver-me nú saído do duche novamente...
terça-feira, 16 de setembro de 2008
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