terça-feira, 16 de setembro de 2008

duche

Desenhei um sorriso no espelho embaciado saído do duche

olhei-me inexpressivamente e vi-me envelhecer...

Lembrei-me dos tempos passados debaixo da terra

e daqueles em pleno ar

das madrugadas gritantes e das noites caladas..

das quentes e imotivas indecisões e das frias e assassinas rotinas.

Pisei o chão molhado e encetei o passo despido

tatuado de água e perfume

abracei a toalha, enquanto senti as gotas cálidas

mergulharem acentuadas no tapete vermelho que suspira tristonho na sala..

vislumbrei a cama lânguida e sedutora

mas segui o meu caminho..

Nota após nota compondo o meu trecho

Camisa

calças

sapatos

pausa para pequeno almoço

e a música continua...

A rádio cantarola alguma coisa sem sentido e dá-me notícias sobre um mundo que não me envolve nem me cativa

Abro a janela do peito e respiro fundo

o nascer de um novo dia que desaba sobre tudo e todos está mesmo no virar da esquina

sem perdoar nem esquecer

sem melindres e sem pudor

Sem promessas nem ilusões...

a realidade prostra-se a meus pés enquanto engraxo os sapatos...

e assim vou..

acalentado sensações únicas em cada passo ainda dormente

ainda sonhador

ainda vivo

ainda sou..

Não consigo definir exactamente o quê, mas ainda o sou

às vezes menor

outras maior

outras apenas sombra..

Podia ser o meu maior sucesso

e podia ser o meu maior fracasso

ao invés do maior fracasso em ter sucesso

o maior sucesso ao ter fracasso

e trocava tudo isso por um raio de sol que me incendia-se as fagulhas da consciência..

a chama que não chama por mim

revolve o passeio e desenha o traçado

que morre que vive e que desenha distraídamente o desejo...

dois caminhos

como duas flores

belas e distintas

que brotam e que murcham simultanemente

cálculo da natureza invencível

Propragada sobre mim adivinha-se a propaganda de um dia de outono..

amadurecido e doirado

a luz vai caíndo nos meus olhos

e lá fora....

murmuram canções antigas...

e escrevem-me cartas que nunca li...

..lá fora deve ser noite pois aqui ainda durmo profudamente..

Sonho...

Sonho até ao acordar e ter um sorriso desenhado no espelho por mim.

Espero até ao amanhã para ser uno

e ver-me nú saído do duche novamente...

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