segunda-feira, 4 de agosto de 2008

tudo isto e nada disto

Balanço nos braços da loucura

embalado pelo dia recortado em espasmos e laivos de insanidade consanguíneos com a rotina mesmerizada do dia a dia..

durmo de olhos abertos

e sonho acordado com outros destinos à margem do que faço e do que acham que sou...

um fantasma carnal vermelho festivaleiro...

que craveja o seu brilhantismo de lama em torres babilónicas que nunca erigi..

apetecia-me viajar sem destino

e voltar apenas quando já ninguém me recordasse senão como um vulto obscuro nas memórias alheias

para voltar a insinuar o mistério nos olhares incautos

e polvilhar as mentes séquitas de profana curiosidade..

passear nas alamedas da incerteza

e reencontrar-me um outro eu mais eu do que jamais o teria sido..

recrear-me na simbiose das minhas palavras

ainda mais louco

como um poeta ditador

que prega a sua lei ao vento e à lua

e tem como seu apenas o manto de chuva que lhe adorna os ossos magoados do tempo..

Resvalo na ideia que possam ter do meu ser

e defendo-me também da minha própria ideia de ego..

Porque não sei ainda o que serei

continuo à procura

Às vezes patife

outras miúdo abandonado às margens de um rio

e outras ainda adulto mais adulto do que gostaria alguma vez de ser..

tantas cartas para escrever que nunca escrevi

e bem sei no fundo que nunca escreverei

e canções que poderia cantar e sei que no fundo não o farei.

Ser de alma diletante esparramado sobre a ideia da humana maneira

feito de espasmos categoricamente brilhantes ou errantes

a escolha está em quem os entende melhor que eu..

triste alegre sentido vazio são estados transitórios

as rosas negras sempre me alegrarão mais se adornarem uma cara bonita num caixão

tudo isto nada disto

e um sorriso...

Carrego no gatilho e disparo

tiro mais uma foto mental de um momento perfeito

em que um sorriso se cruza

despacho-me a arquivar precioso momento como se soubesse de antemão que estarei condenado a persegui-lo

como caçador furtivo que encara a caça como algo mais quente que o próprio sangue que borbulha...

tudo isto nada disto

e sorvo mais um travo da doce loucura que extraio dos meus lábios..

medito por um segundo sob o sabor que retiro desta intensa mordedura

que me salga a boca

mais veloz que o desejo...

gosto do fogo

que nos incendeia

mal posso aguardar por mais labaredas que me inflamem para redigir um capítulo ardente da minha história

porque a vida é a tempestuosa chama que nos lambe e trucida..

tudo isto e nada disto no balanço dos braços da loucura...

a corrida aos lugares no forno já começou

o primeiro a chegar

arderá mais rápido que a imaginação

queimo mais umas linhas a propósito para dizer uma coisa mais apenas

sou o que sou

indigente poeta lúbrico diletante selvagem de brandos costumes de sorriso rasgado e olhar triste

tudo isto e nada disto

que me mantém a balançar nos braços da loucura.

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